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sexta-feira, 18 de março de 2011

Álvaro de Campos

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Miguel Sousa Tavares

Bom romance para o Verão. Os olhos fluem pelas paginas sem dificuldade nenhuma e quando se dá por isso já somos parte integrante da espiral negativa final do Luis Bernardo. Gostei do livro mais pelo que pegar nele significava e me fazia viajar do que pelo enredo propriamente dito, apesar de estar muito bem construído e das personagens serem todas intrigantes e interessantes. Tem que se ler o "Equador" e apesar de ter gostado, acho que é um pouco sobrevalorizado.
até já!

Milan Kundera

A "Valsa do Adeus" é uma obra notável. A dança que se lê entre as personagens, entre a vida e a morte, entre a veracidade e a falsidade é notável. O pretexto é uma gravidez encomendada e a partir daqui temas tão banais como a vontade de deixar um marco no mundo, como a confiança, como a mentira, como a angustia são descritos pelo percurso dos 8 intervenientes. Chega a ser cómica a leveza com que se escreve este romance tão denso.
tj

sábado, 22 de maio de 2010

Julio Verne

No outro dia acabei a "Viagem ao Centro da Terra" de Julio Verne. O autor aplica um grande conhecimento sobre geologia e todas as hipóteses por descobrir e cria uma obra que nos faz voar usando a imaginação, até ao centro da Terra. É um convite fantástico para fugir do mundo e para viver o entusiasmo das personagens, com vista de grandeza! Nunca tinha absorvido nada deste autor e iniciei-me com esta viagem. Apesar de se ler com bastante facilidade, não me fluiu muito bem... talvez pela tardia com que lhe peguei. Hei de ler mais, com certeza mas por agora vou para outras bandas: Kundera!
tj

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

"No teu deserto"

Depois de estar a espingardar o Miguel Sousa Tavares senti necessidade de ler alguma coisa dele. Não tinha o obrigatório Equador ao lado (eu sei que é uma falha mas não passa deste verão) e o primeiro que encontrei foi "No teu deserto". Já me tinham avisado que não era grande coisa e de facto não era... Comecei ontem à noite e acabei-o agora, sem esforço. Isto de ler sem grande esforço um livro levezinho pode ser bom mas pode cair no vazio e não acrescentar muito. Este livro não adicionou nada à literatura e não percebo como é que o autor, depois de escrever uma obra prima (pq n chamar obra prima ao Equador?!), escreve uma coisa tão sem sentido e tão oca... Meios sentimentos descritos, filosofias que não se esclarecem nem se sabe se são legítimas ou não, nevoeiro gratuito. Ele, parece-me, escreve bem, é bom de se ler e os olhos fluem pelas letras, descansados. Se não fosse esta empatia diria que estava a ler Margarida Rebelo Pinto...

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Porto Editora


Nova imagem de uma das maiores editoras portuguesas. Nascida em 44, a Porto Editora festejou os 65 anos com esta reviravolta na comunicação. Afirmada tanto nos dicionários e nos livros escolares como em literatura, a nova imagem projecta para outros 65 anos com o mesmo sucesso. Boa volta!!

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

A história da rã Ana Peres

"Era uma vez uma rã que se chamava Ana Peres. Para rã até era bonita, cores vistosas, olhos dourados, eficazes membranas interdigitais, belas pernas capazes de a dimensionar em saltos de dois metros... enfim, tinha tudo aquilo que uma rã precisa para vencer na vida.
Ora um dia, durante o passeio matinal, Ana encontrou um bonito tritão-verde, com umas manchas pretas bem delimitadas no dorso, uma soberba linha cor-de-laranja ao longo das costas e uma cauda de perder o fôlego. Chamava-se Tertulião.
Ana Peres ficou banzada com a cauda de Tertulião e verde de inveja por não ter igual. Aborrecida, nesse dia só comeu lesmas, tal era a contrariedade.
Ao vê-la assim amargurada, uma amiga dela, Hilda, quis saber o que se passava.
-olha - disse-lhe Ana Peres - deparei-me com a cauda do Tertulião e acho uma injustiça não ter uma igual. Que bem que me ficaria, como saíria favorecida!
Hilda tinha feito alguns estudos de ranologia e estava em condições de informar a amiga acerca da sua génese, mormente da magnífica cauda que já lhe ilustrara a retaguarda do corpo na aurora da juventude.
Mas Ana já se olvidara dos seus verdes anos e nem um vislumbre lhe chegava desses tempos. Cheia de mágoa, estabeleceu o fitode voltar ao passado. Ter uma cauda ondulante tinha-se tornado para ela um imperativo ainda mais forte que viver.
De novo a solução lhe surgiu através de amigos. Coaxava Ana Peres a sua dor nas margens de um riacho numa noite quente de Outono quando Cassandra, a salamandra, que a ouviu, se aproximou.
- Que se passa?
E Ana elencou o que a transtornara.
-Sabes? - atalhou Cassandra- regressar ao passado, na sua vertente de regredir ao tempo das caudas, é para ti uma impossibilidade tão grande como anteciparmo-nos a viver o que será a nossa forma em futuras evoluções. O caminho terá de ser outro. Já ponderaste a hipótese de uma visita virtual?
- Uma visita virtual?... Não queres falar com boca de rã? Não percebi essa da visita virtual.
- Estou a referir-me ao mundo paralelo da alucinação - explicou Cassandra, enquanto realçava o amarelo-sol da sua mancha na omoplata esquerda. - Saberás que estou em condições de te fornecer um produto alucinogénio que te permitirá viajar por todo o lado. Podes mesmo ir até ao teu passado. Vês estes inchaços na parte de trás da minha cabeça? São parótidas, duas glândulas que segregam um líquido que me defende dos inimigos, mas como é uma droga... as drogas permitem-nos viajar, não é?
Ana Peres deixou-se inebriar pelos seus argumentos de Cassandra e recolheu ali mesmo algumas doses do produto da sua amiga salamandra, isolando-se depois num charco longínquo que só dela conhecido.
Passaram dias e noites e de Ana Peres nada. Os amigos procuraram-na em vão.
Uma libélula de sangue real frequentadora de lugares exóticos encontrou por mero acaso o seu corpo já bem morto.

A autópsia foi conclusiva, overdose. Ah sim, a droga mata.
Falta só a moral da história, que é:

Por um belo rabo se perde muitas vezes a cabeça!"

escrito com o humor de sempre
Pe. Carlos Azevedo Mendes
Bichos e Deus ali tão perto